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Minha vida para salvar as araras-azuis

“Como eu dediquei a minha vida para salvar as araras-azuis da extinção" Bióloga e presidente do Instituto Arara Azul, Neiva Guedes teve a sua vocação para as questões do meio ambiente por acaso – e que bom!



Neiva com filhote de arara azul — Foto: Joilson de Barros


Desde pequena eu queria ser médica e eu sempre me preparei para isso. Fiz o meu terceiro ano do Ensina Médio junto com um cursinho para vestibular de medicina em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Até que perdi o meu pai de repente, 40 dias antes da prova, e minha mãe estava grávida. Isso me desestabilizou muito e não passei, mas também não tive tempo de ficar sofrendo já que meu pai era o provedor da minha família e eu tive que ajudar na casa. No final desse próximo ano, o único curso que eu conseguiria fazer era biologia – as aulas eram à noite eu podia trabalhar durante o dia.


Até que, no segundo ano do curso, eu me apaixonei pela biologia e esse meu encanto pelo tema não parou mais. Me formei e deixei de trabalhar como secretária executiva do Departamento de Estradas e Rodagem do Mato Grosso do Sul e fui trabalhar na Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, mas eu queria mesmo era ir para a área de pesquisa.


As araras não surgiram de imediato, pelo contrário. Há mais de 30 anos não tinha muita pesquisa com biodiversidade aqui no Pantanal. Quando eu trabalhava na secretaria do Meio Ambiente do MS u fiz um curso de conservação na natureza – e, neste curso, junto com outros técnicos aqui do estado, fomos para o Pantanal. Lá, eu vi uma árvore com as araras pousadas no galho seco e o professor disse que elas estavam entrando em extinção. E foi paixão à primeira vista. Eu pensei que precisava fazer alguma coisa para que elas continuassem existindo.


O ponto de partida


Foi depois dessa cena que eu decidi começar a estuda-las. No ano seguinte, em 1991, fui fazer o meu mestrado na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", em Piracicaba, São Paulo, já com as araras como o meu objeto de estudo. Fiquei bons anos me dedicando a elas, através do Projeto Arara Azul, mas sem uma personalidade jurídica por trás, até que em 2003 eu criei o Instituto Arara Azul. Mas de fato, eu só vou, ampliar os estudos e dar uma vertente muito maior e profissional quando construímos a sede em Campo Grande, cerca de 10 anos depois.


Desde o começo, quando iniciei os estudos das araras, eu sempre soube que não trabalharia sozinha. Eu precisava ter o apoio dos moradores locais e fazendeiros e contar com eles para a minha missão.


Eu também tinha o entendimento de que não era só conhecer a Arara-Azul. Eu já sabia que a população estava diminuindo por conta do tráfico. Ela tinha sido listada como ameaçada de extinção em 1987. A estimativa era de, mais ou menos, 2.500 indivíduos na natureza na época. Se eu não fizesse nada, ela poderia sumir. Então, eu não só queria conhecer, mas a criar medidas de manejo para conservação delas.


Luz no fim do túnel


Durante os dois primeiros anos do projeto eu estudei a biologia das araras – como é a postura dos ovos, quantos são colocados, quantos filhotes nascem... A partir daí, eu identifiquei que elas não tinham muitas “cavidades” para se reproduzir. Eu vi muitas araras brigando por um ninho. Comecei a visualizar que uma das problemáticas era a escassez dessas cavidades nas árvores. Em 1994, comecei a testar modelos e materiais diferentes pra confecção de ninhos artificiais.


As caixas funcionaram e, uma semana depois que as instalei, elas estavam lá colocando os primeiros ovinhos. Comecei a usa-las em larga escala e foi nítido o aumento do numero de casais se reproduzindo no Pantanal. Quando cheguei na Caiman, fazenda localizada na porta de entrada para o Pantanal sul-mato-grossense, em Miranda, identifico um potencial muito grande para a instalação desses ninhos. Levantei todos os naturais que já existiam na propriedade, e instalei o dobro dos artificiais. E foi um sucesso! Ali, tornou-se um centro de reprodução das araras-azuis no seu ambiente natural.


E uma salva de palmas


Desde o início do nosso trabalho com o Instituto, o número das araras-azuis quase que triplicou no Brasil. A última estimativa que temos é de 2008 e ela é de 6.500 indivíduos na natureza. Nós seguimos trabalhando para esse número crescer, mas para se ter uma ideia: a população de arara-azul é maior em cativeiro do que em vida livre. Ou seja, temos momentos de euforia e alegria, mas também de muita tristeza.


Neiva com filhote de arara azul no ninho — Foto: Arquivo pessoal

Quando eu vejo um filhote saindo de um ninho artificial, ou um casal que se reproduz em ninhos artificiais que nós instalamos... Eu me sinto muito feliz, mas é uma montanha-russa. Quando tivemos grandes incêndios, como os de 2020 e 2021 por exemplo, foi desesperador. É como se todo trabalho de uma vida estivesse indo por água abaixo. Mas, para mim, quando você tem esse senso de pesquisa e de conservação, você não desiste. A gente chora, a gente fica mal, mas continua lutando. Por elas e por nós.


Eu sou muito grata a todas as pessoas, empresas e instituições que me ajudaram, ajudam e vem se agregando ao longo dos 32 anos de trabalho. Não é fácil trabalhar pela conservação, principalmente no Brasil, com um governo que não incentiva a ciência e a pesquisa. Eu, Neiva, sozinha, não teria feito nada. Talvez teria feito meu mestrado, mas se hoje as araras-azuis estão aí – vivas – é porque tem muita gente envolvida em prol delas. Por Neiva Guedes https://glamour.globo.com/google/amp/lifestyle/noticia/2022/12/como-eu-dediquei-a-minha-vida-para-salvar-as-araras-azuis-da-extincao.ghtml


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